Parou por um instante e fitou as próprias mãos: estavam sujas e úmidas da terra revirada; fiapos de grama haviam se aninhado debaixo das longas unhas pintadas de preto no dia anterior enquanto elaborava o plano da noite de hoje. Com uma placidez quase angelical limpou as palmas no avental e prosseguiu na tarefa de cobrir o solo do jardim. Ajoelhada, languidamente puxava com uma colher de jardinagem os pedaços de terra molhada e os tufos de grama, relembrando com minúcia os acontecimentos das últimas semanas. Como não notara antes, durante todos esses anos? inquiria-se intimamente. Seus olhos marejaram, mas ela não permitiu que a lágrima escorresse pelo rosto, contorcendo a boca e praticamente absorvendo de volta o sumo produzido. Não permitiria que aquele jardim fosse contaminado por seu suco salgado e cheio de amargura. Não. Não depois de tudo o que suportara silenciosamente, estóica. Dez anos de casamento, comemorados há apenas duas semanas. Olhou o anel de diamante que ornava a mão esquerda – estava recoberto por terra. Silenciosamente retirou-o do dedo limpando-o em seguida com a outra mão. Afastou algumas flores do solo e o colocou solenemente sob a terra. Após, contraindo os lábios, cobriu-o com um tufo de grama. Dez anos... A que ponto pôde chegar uma alma servil como a dela, aniquilando-se paulatinamente, dia a dia, para que aquela relação pudesse perdurar por algo próximo da eternidade? Pois ela o amava. E muito. Tanto, que abdicara de todos os seus sonhos da juventude, dos planos – e não se diz aqui dos planos ermos, dos pequenos projetos que o próprio tempo se encarrega de solapar -, abrira mão da carreira, dos prazeres mais comezinhos, da possível aventura e, de cabeça, mergulhou no cotidiano. Anulou-se para que seu sonho de amor pudesse resistir ao desencanto inerente ao passar dos anos...
Puxou mais um pouco de terra comprimindo com as mãos o solo, de forma que ficasse compacto. Com certo esforço ergueu-se um pouco e ficou de cócoras, apanhando um ramalhete de rosas brancas e distribuindo-as uniformemente pelo canteiro. Dez anos... Naquele momento seu semblante empalideceu estático: teria sido culpa sua? Não que o fosse objetivamente mas... por um determinado viés? Sorriu nervosamente, convicta de sua inocência. Além do quê, mesmo que admitisse que sua postura – embora eivada de boas intenções – pudesse ter levado ao fim aquele casamento, o mínimo que poderia admitir era honestidade. Acabou? Tudo bem... Mas, acabou por quê? Ah, sim... Por isso. Está certo. Tem certeza? Tem certeza mesmo de que acabou? Nada posso fazer para alterar este fato? Assim, sim. Admito o fim então. Mas mo diga. E não adianta argumentar dizendo que o disse nas entrelinhas... Parou e limpou o suor da testa, esfregando-a com o braço. Que droga! Casamento é um contrato sério – pensava -, não comporta este tipo de artifício! Ademais, ah!, não existem entrelinhas na “ausência de espaço”. E do que mais se trata um casamento, senão da anulação total da parte hipossuficiente – e neste caso claro está que sou eu! – em benefício do bem-estar da outra? Remexeu impaciente a terra; desta vez, a colher escapou-lhe às mãos, causando-lhe um pequeno corte superficial no pulso... Largou o instrumento e recolheu o braço num gesto rápido, resmungando impropérios. Fitou o fio de sangue que escorria pela mão, a pequena fenda aberta no pulso, e uma idéia sinistra lhe ocorreu... Não! Nunca! Seria o final apoteótico para uma história de resignação e humilhações. O corolário de uma vida de total insignificância: deixar de existir por não ter existido não fazia o menor sentido. Não agora. Respirou fundo. Mesmo porque o que está feito, está feito – sentenciou. Pressionou novamente a terra, compactando-a. Lançou uma última olhada ao redor para certificar-se de que estava tudo no lugar: as flores haviam sido perfeitamente dispostas, de forma que compunham um cenário de um colorido harmônico e os novos tufos de grama quase não destoavam do resto do quintal. Recolheu os instrumentos, limpou as mãos no avental e ergueu-se repentinamente, dirigindo-se a casa. Um pouco antes de entrar pela porta, admirou uma vez mais o quintal, sem deixar de sentir certo constrangimento: afinal, havia contaminado seu belo jardim com o ignóbil corpo do cafajeste. Pé de quê nasceria ali?
Puxou mais um pouco de terra comprimindo com as mãos o solo, de forma que ficasse compacto. Com certo esforço ergueu-se um pouco e ficou de cócoras, apanhando um ramalhete de rosas brancas e distribuindo-as uniformemente pelo canteiro. Dez anos... Naquele momento seu semblante empalideceu estático: teria sido culpa sua? Não que o fosse objetivamente mas... por um determinado viés? Sorriu nervosamente, convicta de sua inocência. Além do quê, mesmo que admitisse que sua postura – embora eivada de boas intenções – pudesse ter levado ao fim aquele casamento, o mínimo que poderia admitir era honestidade. Acabou? Tudo bem... Mas, acabou por quê? Ah, sim... Por isso. Está certo. Tem certeza? Tem certeza mesmo de que acabou? Nada posso fazer para alterar este fato? Assim, sim. Admito o fim então. Mas mo diga. E não adianta argumentar dizendo que o disse nas entrelinhas... Parou e limpou o suor da testa, esfregando-a com o braço. Que droga! Casamento é um contrato sério – pensava -, não comporta este tipo de artifício! Ademais, ah!, não existem entrelinhas na “ausência de espaço”. E do que mais se trata um casamento, senão da anulação total da parte hipossuficiente – e neste caso claro está que sou eu! – em benefício do bem-estar da outra? Remexeu impaciente a terra; desta vez, a colher escapou-lhe às mãos, causando-lhe um pequeno corte superficial no pulso... Largou o instrumento e recolheu o braço num gesto rápido, resmungando impropérios. Fitou o fio de sangue que escorria pela mão, a pequena fenda aberta no pulso, e uma idéia sinistra lhe ocorreu... Não! Nunca! Seria o final apoteótico para uma história de resignação e humilhações. O corolário de uma vida de total insignificância: deixar de existir por não ter existido não fazia o menor sentido. Não agora. Respirou fundo. Mesmo porque o que está feito, está feito – sentenciou. Pressionou novamente a terra, compactando-a. Lançou uma última olhada ao redor para certificar-se de que estava tudo no lugar: as flores haviam sido perfeitamente dispostas, de forma que compunham um cenário de um colorido harmônico e os novos tufos de grama quase não destoavam do resto do quintal. Recolheu os instrumentos, limpou as mãos no avental e ergueu-se repentinamente, dirigindo-se a casa. Um pouco antes de entrar pela porta, admirou uma vez mais o quintal, sem deixar de sentir certo constrangimento: afinal, havia contaminado seu belo jardim com o ignóbil corpo do cafajeste. Pé de quê nasceria ali?

