24 Março 2007

SOB CERTO LUAR

Parou por um instante e fitou as próprias mãos: estavam sujas e úmidas da terra revirada; fiapos de grama haviam se aninhado debaixo das longas unhas pintadas de preto no dia anterior enquanto elaborava o plano da noite de hoje. Com uma placidez quase angelical limpou as palmas no avental e prosseguiu na tarefa de cobrir o solo do jardim. Ajoelhada, languidamente puxava com uma colher de jardinagem os pedaços de terra molhada e os tufos de grama, relembrando com minúcia os acontecimentos das últimas semanas. Como não notara antes, durante todos esses anos? inquiria-se intimamente. Seus olhos marejaram, mas ela não permitiu que a lágrima escorresse pelo rosto, contorcendo a boca e praticamente absorvendo de volta o sumo produzido. Não permitiria que aquele jardim fosse contaminado por seu suco salgado e cheio de amargura. Não. Não depois de tudo o que suportara silenciosamente, estóica. Dez anos de casamento, comemorados há apenas duas semanas. Olhou o anel de diamante que ornava a mão esquerda – estava recoberto por terra. Silenciosamente retirou-o do dedo limpando-o em seguida com a outra mão. Afastou algumas flores do solo e o colocou solenemente sob a terra. Após, contraindo os lábios, cobriu-o com um tufo de grama. Dez anos... A que ponto pôde chegar uma alma servil como a dela, aniquilando-se paulatinamente, dia a dia, para que aquela relação pudesse perdurar por algo próximo da eternidade? Pois ela o amava. E muito. Tanto, que abdicara de todos os seus sonhos da juventude, dos planos – e não se diz aqui dos planos ermos, dos pequenos projetos que o próprio tempo se encarrega de solapar -, abrira mão da carreira, dos prazeres mais comezinhos, da possível aventura e, de cabeça, mergulhou no cotidiano. Anulou-se para que seu sonho de amor pudesse resistir ao desencanto inerente ao passar dos anos...
Puxou mais um pouco de terra comprimindo com as mãos o solo, de forma que ficasse compacto. Com certo esforço ergueu-se um pouco e ficou de cócoras, apanhando um ramalhete de rosas brancas e distribuindo-as uniformemente pelo canteiro. Dez anos... Naquele momento seu semblante empalideceu estático: teria sido culpa sua? Não que o fosse objetivamente mas... por um determinado viés? Sorriu nervosamente, convicta de sua inocência. Além do quê, mesmo que admitisse que sua postura – embora eivada de boas intenções – pudesse ter levado ao fim aquele casamento, o mínimo que poderia admitir era honestidade. Acabou? Tudo bem... Mas, acabou por quê? Ah, sim... Por isso. Está certo. Tem certeza? Tem certeza mesmo de que acabou? Nada posso fazer para alterar este fato? Assim, sim. Admito o fim então. Mas mo diga. E não adianta argumentar dizendo que o disse nas entrelinhas... Parou e limpou o suor da testa, esfregando-a com o braço. Que droga! Casamento é um contrato sério – pensava -, não comporta este tipo de artifício! Ademais, ah!, não existem entrelinhas na “ausência de espaço”. E do que mais se trata um casamento, senão da anulação total da parte hipossuficiente – e neste caso claro está que sou eu! – em benefício do bem-estar da outra? Remexeu impaciente a terra; desta vez, a colher escapou-lhe às mãos, causando-lhe um pequeno corte superficial no pulso... Largou o instrumento e recolheu o braço num gesto rápido, resmungando impropérios. Fitou o fio de sangue que escorria pela mão, a pequena fenda aberta no pulso, e uma idéia sinistra lhe ocorreu... Não! Nunca! Seria o final apoteótico para uma história de resignação e humilhações. O corolário de uma vida de total insignificância: deixar de existir por não ter existido não fazia o menor sentido. Não agora. Respirou fundo. Mesmo porque o que está feito, está feito – sentenciou. Pressionou novamente a terra, compactando-a. Lançou uma última olhada ao redor para certificar-se de que estava tudo no lugar: as flores haviam sido perfeitamente dispostas, de forma que compunham um cenário de um colorido harmônico e os novos tufos de grama quase não destoavam do resto do quintal. Recolheu os instrumentos, limpou as mãos no avental e ergueu-se repentinamente, dirigindo-se a casa. Um pouco antes de entrar pela porta, admirou uma vez mais o quintal, sem deixar de sentir certo constrangimento: afinal, havia contaminado seu belo jardim com o ignóbil corpo do cafajeste. Pé de quê nasceria ali?

13 Março 2007

UM DIA QUASE NORMAL

“Pra onde foram as árvores!?” indagou-se atônito. Acordara cedo naquela manhã de domingo, estava ansioso por ler as páginas de esporte do diário matutino. Rodada importante do campeonato no sábado, o atacante principal de seu time de coração havia se contundido e ainda pendiam dúvidas acerca da gravidade da lesão. Admirou-se de ouvir abruptamente o despertador do relógio e não localizá-lo em cima do criado-mudo. Levantou-se vagarosamente e ainda no estado de sonolência dirigiu-se até a porta de entrada para apanhar o jornal. Foi quando fitou o jardim e notou que as árvores não estavam mais lá: duas mangueiras e um limoeiro haviam simplesmente desaparecido. No local, apenas as marcas da supressão das raízes na terra ainda molhada. Olhou ao redor, desconfiado, mão no queixo. Coçou a cabeça, rodeou o jardim e foi até o muro para bisbilhotar do outro lado. Nada. Manhã de domingo normal, ninguém na rua, a calçada suja de folhas secas levadas ao chão pelo vento de outono. Voltou ao local das árvores, agachou-se e ficou ali, admirado, mirando o buraco no chão. Permaneceu assim por alguns minutos, em completo devaneio até que um vulto por trás de sua cabeça chamou sua atenção: o banco de madeira que adornava a borda do jardim, bem em frente à sacada da casa, começava flutuar lentamente. O suporte de ferro do encosto ainda esbarrou no telhado desarrumando algumas telhas e o banco subiu... Foi então que, ainda de cócoras, lançou um olhar para cima. Lá no alto, a uns duzentos metros, pôde avistar as três árvores que flutuavam estáticas no espaço. Meneou a cabeça e se voltou um pouco para trás: dois carros, uma caçamba de lixo, um carrinho de bebê e um bebê dentro. Não dava pra ouvir se estava chorando. Nos arredores, vários objetos pequenos subiam lentamente para o céu. No horizonte já se notava uma poeira de coisas que se acumulavam em órbita da cidade, formando uma nuvem escura. Num rompante ergueu-se em desespero e correu para o interior da casa, batendo a cabeça no jornal que já começava a subir também. No quarto, seus objetos pessoais, a cama, o criado-mudo, os lençóis e o edredom estavam encostados no teto. Notou à esquerda, ao lado da cama, o relógio despertador que ainda tocava intermitentemente, de encontro à parede. “É o fim do mundo!” pensou, começando a ensaiar seu pedido de perdão que precederia a morte. Caiu de joelhos no chão, mas não chegou a tocá-lo – agora flutuava também. Precisava pedir socorro, alcançar o telefone, chegar à janela, qualquer coisa. Numa seqüência de movimentos desordenados tentou navegar apoiando-se nos objetos, até perceber que era desnecessário o uso de força. Deslocava-se facilmente naquele estado de leveza, ou de ausência de gravidade, já não sabia mais os conceitos de física aprendidos no ginásio. Direcionando-se com as mãos tateando a laje, seguiu até a janela. Para seu espanto, ao colocar a cabeça para fora do batente, constatou que sua casa já se encontrava em órbita também. Ao redor, por entre os reflexos do sol que lhe pareciam bem mais intensos do que o habitual, as outras casas da vizinhança também flutuavam, pairando estáticas no ar. Dona Clotilde, a vizinha da esquerda, estava dependurada pela janela, o tronco quase todo de fora, de bóbis no cabelo, tentando inutilmente alcançar a dentadura que boiava no ar fora de seu alcance. A nordeste, a casa de Seu Pedro, com Seu Pedro sentado sob a porta de entrada, as pernas balançando ao léu... Por um momento estremeceu de susto quando sua visão foi bloqueada pelo velho Chevrolet que passou de repente pela janela. Mas logo o carro se acomodou atrás da casa, desobstruindo sua visão. Lá embaixo, buracos no chão e pedaços de alicerces e fundamentos lembravam as ruínas de uma cidade perdida há muito no tempo. “No tempo e no espaço” parodiou consigo mesmo, rindo. Ficou na janela, pasmado, por várias horas, até que uma súbita letargia o dominou por inteiro e ele adormeceu.
Acordou ao som do despertador do relógio digital.
Espreguiçou-se lentamente, contorcendo os braços e as pernas num espasmo prazeroso; esfregou os olhos como de costume e pensou no sonho maluco que sonhara. Sorriu do surrealismo que o inconsciente possibilitava e já ia se levantando para apanhar o jornal quando... deu de cabeça com o teto!? Despertou imediatamente, girou para ambos os lados, esbarrou em objetos que flutuavam ao seu redor. Dirigiu-se de pronto para a janela: do lado de fora, pessoas passavam apressadas, flutuando, pastas nas mãos. Uma mulher empurrava velozmente um carrinho de bebê, com um bebê dentro; um gari balançava a vassoura no ar, tirando resíduos do caminho e homens de terno agitavam-se ao telefone celular enquanto miravam o relógio no outro pulso. As pessoas agitavam-se apressadas no espaço, feito rãs na água, cada qual para seu destino incógnito, o caos de sempre.
“Bom, deixa eu me trocar, que estou atrasado”, pensou.
Era uma segunda-feira quase normal.

26 Fevereiro 2007

DIVAGAÇÕES

Fecho os olhos e, no entanto, enxergo melhor que a lula gigante. Gigante, não. Enorme. Encontrada no oceano gélido do Pólo Sul por pescadores igualmente gélidos da Nova Zelândia, o milenar molusco cefalópode – dizem – tem os maiores globos oculares do mundo animal. Do tamanho de um prato. Dizem.
Folheio o jornal mais uma vez, sempre de trás para frente, hábito adquirido no manuseio diário de processos judiciais. Lanço um olhar distraído para a janela: lá fora as nuvens se aglutinam, escurecem assumindo cara de chuva. Coincide com a previsão meteorológica da página C-2 do periódico: pancadas de chuva no final da tarde. Temperatura máxima de 26°; a mínima depende do estado de espírito. Em mim, geada desde há muito tempo. Fricciono as mãos, quem sabe a alma toque a epiderme por dentro e se aqueça também? Fecho os olhos novamente e uma nova enxurrada de imagens me atropela. Imagens coloridas, nítidas, talvez até reais, de lugares em que não me lembro de ter estado. Clarividência? Imaginação? Insanidade?
Não.
A vertigem assemelha-se à sensação provocada pela altura.
São visões do futuro. Futuro do presente. Indicativo.
Abro os olhos e os fecho mais uma vez, rapidamente, pressionando as pálpebras. Esfrego-os com as mãos, pisco.
Largo o jornal e me levanto da cadeira, pensativo. Doze metros de comprimento, a lula.
Hora de voltar ao mundo real.

06 Fevereiro 2007

DIAS

Dias comuns como este, de rotina batendo na janela, fazendo barulhinhos na persiana... Dias de trinta e nove canais na TV a cabo, de oito horas de chuva pingando na mesa de trabalho, umectando o monitor. Dias de ônibus lotados silenciando o caos das avenidas, silenciosas de um som que já não é barulho, é estertor... E sons que já ultrapassaram as barreiras dos sonhos, e sonhos que invadiram a realidade. E a realidade? Do que se trata esse conceito, afinal, em tempos de física quântica vendida no varejo, enquanto me sinto atacado?
Dias comuns de pagamento de contas, de velórios de contos, de contagem de velas... De velas sobre-humanamente içadas em tempos de dias sem ventos. Dias de saudades de tempos idos, ouvidos nos recônditos do peito...
E o que já não era, está feito. E o dia angustia uma noite em que não se consegue virar a página daquele livro que se ousa prometer ler antes de morrer... Mesmo que se morra distraído; mesmo que se morra sem jeito.
E ainda insiste-se em acreditar que o perfeito reside no imperfeito.
Ou será o contrário?
Dias de dúvidas, isso sim.

29 Novembro 2006

O HOMEM QUE PERDEU A MEMÓRIA

Aconteceu de repente, de uma hora para outra. Estava na repartição, sentado à mesa de trabalho, em frente ao computador. Subitamente parou, franziu o cenho semicerrando os olhos. Olhou ao redor desconfiado, numa mescla de medo e curiosidade. O que fazia ali? pensou, tentando concatenar as idéias. Forçou a mente, chacoalhou a cabeça; porém, nada. Nem uma lembrancinha sequer para suavizar o breu da memória. Por que diabos não se lembrava de nada? Um assobio improvisado por um colega de setor o distraiu por um instante. Girou a cabeça na direção do cidadão e... o que estava pensando mesmo? Neste exato momento lembrava-se apenas de lançar uma espiada para o... o... qual era o nome dele, inferno? Mas que diabos! pensou. Num ímpeto levantou-se quase exasperado, derrubando o porta-lápis, os formulários e o grampeador. Quando evadiu a seção a cadeira ainda girava em razão da violência do impulso, e um curto silêncio dominou o recinto, olhares atônitos por trás dos monitores...

Quando a porta do elevador abriu no andar térreo, ele saiu calmamente caminhando em direção à rua. Por um breve instante teve uma sensação desagradável de estar esquecendo alguma coisa. Apalpou os bolsos da calça e da camisa, tranqüilizando-se ao tatear a carteira e o celular. Olhou para trás e fitou a porta do edifício comercial de onde acabara de sair: como nunca notara este prédio antes? indagou em silêncio. Ao ouvir a própria pergunta reverberando dentro da cabeça, estremeceu: lembrou que não se lembrava de quase nada!

Num esforço sobre-humano capturou a sensação do esquecimento e memorizou a palavra "pronto-socorro", saindo em disparada. Enquanto corria, repetia para si mesmo “não me lembro, P.S., não me lembro, P.S., não me lembro, P.S...” enquanto percebia a familiaridade dos arredores desaparecer lentamente. Num dado momento estancou estarrecido: onde estou? Pra onde vou? Desesperado, sentiu os olhos marejarem e uma lágrima trêmula salgou seus lábios. O zumbido grave do motor de um ônibus tirou-lhe a atenção. Olhou ao redor, girando em torno do próprio eixo num circulo completo até que seu olhar coincidiu com a placa indicativa do pronto-socorro. Como um soco em sua cabeça a lembrança da ausência de lembrança voltou, forte, nítida, e então disparou em direção ao hospital, atravessando a avenida sem sequer olhar para os lados. Adentrou o saguão, já exaurido, completamente suado, ofegante: não lhe dizia nada aquele ambiente! Pois não, o que o senhor deseja? perguntou uma enfermeira, muito simpática por sinal. Encarou-a por um longo período: não sei.

Saiu do pronto-socorro um pouco frustrado por não saber o que fazia ali. Que estranho... acho que esqueci alguma coisa, constatou. O dia estava radiante, o sol iluminava as copas das árvores que dividiam as pistas da avenida. O reflexo dos raios solares no pára-brisa de um automóvel o cegou momentaneamente, obrigando-o a fechar os olhos. Sentiu o calor na pele e a brisa fresca que logo em seguida fez dançar os pelos dos braços. Caminhou absorto, sem destino, sem pressa e sem a gravata, jogada numa caçamba de lixo segundos antes. Já não se lembrava que não se lembrava mais.

06 Junho 2006

O ESCRITOR DE UM LIVRO SÓ

Sentado à escrivaninha de seu quarto sob a parca luz de uma luminária, ele observava sua máquina de escrever. Era uma Érika preta de teclado com detalhes dourados, fabricada na Alemanha em 1930 e herdada de seu pai em 1984, por ocasião de seu falecimento precoce aos quarenta e sete anos de idade. Não pode deixar de pensar nele ao passar a flanela umedecida sobre o ferro frio do antigo equipamento – porque não dizer anacrônico? – e lembrar do orgulho que seu pai sempre sentiu da pseudogenialidade do filho. Sim, porque muito cedo fora iniciado no mundo dos livros e também muito cedo começara sua jornada nas letras. O pai, jornalista de profissão e escritor por vocação, nunca chegou a confirmar a promessa de sucesso. Veio e passou pelo mundo sem deixar muitas marcas: vinte e quatro anos de jornalismo investigativo mediano e dois romances - dos dez escritos - publicados. Contudo, deixara marcas indeléveis na memória do filho, que agora percebia uma lágrima rolar pela face diante de sua não resistência à repentina emoção que lhe proporcionava observar as 426 páginas de seu primeiro romance datilografadas uma a uma na velha máquina... Sentia intimamente que, enfim, correspondia às expectativas do pai e justificava o antigo orgulho alimentado até aquele fatídico dia 16 de maio de 1984 em que ele perdera a vida.
Acendeu um Marlboro de filtro vermelho para aplacar a ansiedade que o acometia: dentro de dezenove horas estaria na Livraria Cultura do Shopping Villa-lobos recebendo os convidados e concedendo entrevistas na noite de autógrafos do lançamento daquele que ele convencionou chamar de “o sentido de sua vida”: três anos de pesquisas inesgotáveis e mais dois de confecção da obra nas madrugadas solitárias, sempre após a jornada diária de trabalho no jornal. Depois, a busca quase insana por uma editora que se interessasse pela publicação, as intermináveis revisões, a ingerência do editor... Mas, por fim, estava pronto! Mais um único dia e seu projeto de vida estaria concretizado. Ousava até já pensar no assunto de um próximo livro e sua imaginação ganhava contornos de imponderabilidade. Antevia as críticas jornalísticas da imprensa especializada, resenhas, estudos... Seu nome sendo cogitado para a Academia, bustos seus espalhados pelo Brasil afora, praças e ruas em sua homenagem. Num futuro mais remoto, quem sabe até antologias, seu nome constando dos compêndios de Literatura Brasileira...
Adormeceu sentindo o prazer tátil de acariciar o primeiro exemplar, exausto das especulações mentais.
Despertou angustiado e ansioso. Tomou um banho demorado, observando pela janela do banheiro o céu cinza que prenunciava a chuva. A recepção estava marcada para as nove da noite, mas precisava estar lá duas horas antes para os preparativos. Tomou café com torradas, leu o jornal. O caderno cultural trazia uma nota acerca do lançamento – pequena é verdade, mas se tratava de um jornal de grande circulação – e sentiu novamente uma pontada de emoção trespassar seu espírito. As horas demoravam a passar, a chuva castigava a cidade e sua angústia se intensificava. Passou a tarde elaborando textos de dedicatórias, descobrindo seu melhor ângulo para as fotos e escolhendo a roupa propícia para a ocasião. Recebeu um telefonema do editor repassando os detalhes, confirmou a presença de alguns convidados, fumou quase um maço inteiro de cigarros.
Enfim, era chegada a hora. Aprumou-se mais uma vez, ajeitou a gravata, certificou-se de que não esquecia nada. No momento em que saía de casa percebeu que deixara a caneta tinteiro Mont Blanc Boheme Noir Steel sobre a escrivaninha e voltou apressadamente para apanhá-la. Havia comprado a caneta na tarde anterior especialmente para a ocasião e não ligava muito para o fato de se tratar de um dos indefectíveis clichês da profissão. Dava-se o direito de cometê-los naquela noite.
A chuva torrencial tornava o ato de dirigir o veículo missão homérica e atribuía um clima ainda mais denso àquela sensação angustiante que o acometia desde manhã. Pensou que a tempestade talvez pudesse atrapalhar a realização do evento, tirando o ânimo dos convidados em se aventurarem a sair de casa. Essa hipótese o entristeceu um pouco, ligou o rádio e tentou desviar o pensamento, buscando ser otimista. Estava na pista da esquerda da via expressa da Marginal Pinheiros quando o inesperado aconteceu: a chuva forte, uma freada brusca, uma colisão dois carros à sua frente e depois o próprio carro.
Morreu esmagado num engavetamento tão grandioso quanto a tempestade que despencava. Morreu e não pode ver o sucesso que fora a noite de lançamento de seu primeiro romance; as sucessivas reedições, as posteriores traduções para o francês, o inglês, depois o alemão, russo, japonês... Seu nome atravessou o continente, depois o oceano, virou referência em literatura brasileira contemporânea. Transformou-se em ícone de uma geração e, na sua esteira, os oito romances remanescentes e inéditos de seu pai foram sucessivamente publicados e reeditados também. Praças ganharam seu nome e um suntuoso busto seu passou a ornamentar a Praça da República na capital paulista. Seu romance virou filme em Hollywood e seu nome adquiriu sotaque norte-americano. Escrevera um único livro, porém definitivo e necessário. E a velha Érika alemã, fabricada em 1930, passou a fazer parte do acervo do Museu do Livro, construído em sua homenagem.

17 Maio 2006

PARALELOS

“Sim, sou eu mesmo. Nem pense em fechar os olhos achando que assim desaparecerei como uma miragem proporcionada pelo excessivo calor que emana de seus nervos. Também não acredite que este princípio de desespero e a vertigem causada pela aparente desconexão da realidade o ajudarão a escapar de encarar-me. Este é o único momento que existe e, ao contrário do que as palavras que insistem em reverberar em suas idéias dizem, a ilusão é aquilo. Não isto. Isto aqui é a realidade, e eu existo de fato.”

Talvez não fossem realmente raios translúcidos que irradiavam do orbe lunar e nem tão pouco gotas de orvalho que texturizavam as folhas das imensas samambaias inexistentes do seu jardim secreto... Talvez nem mesmo o jardim fosse verídico. E, quiçá, ele também não existisse de verdade... Tudo isso pouco importava agora. Decidira invadir o lado obscuro de sua inconsciência e levara poucos minutos desta vez para acionar o impulso quase involuntário de encarar os seus fantasmas. Há tempos que se entregara definitivamente à busca insana por sentido e não seria agora – justamente agora que estava tão perto – que sucumbiria ao aliciamento do medo. Seguiu em frente, empertigado, olhar fixo na imensa luz que irradiava a poucos palmos acima do horizonte. Seus passos tornavam-se pesados e seu corpo inclinava-se para frente dando-lhe a sensação de estar caminhando contra uma ladeira... Porém, a superfície multicolorida por onde se deslocava convicto era eternamente plana.

“Volta. A fuga é inócua, pois todos os caminhos mentais vêm a mim. Seu medo é viril e contundente justamente porque sabe que está para morrer. E esses espasmos que indicam sua resistência em crer que tudo fora um sonho desnecessário são os últimos sinais de mínima permanência na mentira. O fim da dualidade.”

A velha noção de tempo dava lugar, enfim, a uma percepção bem mais condizente com a grandeza de sua consciência. A sensação de deslocamento no espaço e a impressão de inclinação do caminho foram se esvaindo. Notou que os raios translúcidos emanavam de seu peito e não do orbe lunar... que orbe lunar? A textura dos elementos que compunham o ambiente ao redor bruxuleava como se falhasse e começou a notar, então, a presença discreta daquilo que tanto procurava. Sim, era isso! A luz intensificou-se de repente, o plano tornou-se bidimensional, a voz ecoava retumbante: “Acorda! Acorda agora e mata esse medo. Elimine-o de uma vez por todas, como se elimina a erva daninha do jardim. Ele não existe de fato, mata essa ilusão. Mate-a e acorda! Acorda! Acorda!...”.

- Acorda... Acorda amor!

Abriu os olhos e demorou a dar-se conta de onde estava... Lentamente girou a cabeça e observou ao seu redor; o cenho franzido, os lábios entreabertos. A luz solar que rompia a persiana e invadia o cômodo ofuscou sua visão, mas pode reconhecer um quarto, uma cama e uma esposa que o acariciava no peito apoiada sobre o cotovelo no colchão. Ela repetia pausadamente: “Acorda... acorda! Você está tendo um pesadelo...”.
Levantou-se de um só impulso e acomodou-se na cama apoiando as costas na cabeceira.
Sim, tudo estava bem.
Exceto por suas mãos, sujas de sangue.

06 Maio 2006

“HUMANO, DEMASIADO HUMANO”

Quando ela se dirigiu a mim de forma tão abrupta, quase que me derrubando, exalando aquele odor fétido e resvalando em meu suéter suas mãos trêmulas e sujas, confesso que tive nojo. Não que eu guarde algum tipo de rancor ou de preconceito, nem que seja afefóbico ou neurótico por assepsia. Mas notar de forma repentina a aproximação tátil daquela mulher mal-cheirosa e suja me provocou uma ânsia momentânea cuja explicação vai além da minha capacidade de compreensão. A mulher segurou-me pela manga do agasalho cravando suas unhas compridas e pretas no tecido, e pude sentir na epiderme do antebraço direito o contato promíscuo de suas extremidades podres com minha pele. Aquela sensação de contaminação provocou-me uma catarse emocional tão intensa que, pela primeira vez em muitos anos, senti-me margeando a linha que separa a contensão do desespero. Meus olhos, exasperados, arregalaram-se espasmodicamente e lancei-lhe um olhar tão penetrante e contaminador quanto a incisão de suas unhas sujas em meu braço. A mulher afastou-se na mesma velocidade em que me surpreendeu, ignorou minha reprovação tácita e dirigiu-se para o lado oposto. Ainda pude sentir o odor de urina que evadia de seus retalhos e que permaneceu na minha atmosfera mesmo depois que ela se foi...
Uma vez dentro do ônibus, já devidamente acomodado, não conseguia conter aquelas ondas de pavor que percorriam meu corpo. A simples lembrança do ocorrido trazia à tona a sensação originária de asco e era como se tivesse pisado descalço sobre excremento humano - humano, porque assim é mais asqueroso do que se fossem resíduos de um animal qualquer – ou apoiado a palma da mão sobre uma superfície de consistência incerta recoberta de limo... Revoltei-me. Como aquela mulher evocava o direito de me agredir daquela forma tão vil? Como podia ser tão suja e tão fedida, tão maltrapilha e pobre? Mas não, ela não tinha medida alguma, e ainda perpetrou aquela transfusão de resíduos contaminados de suas unhas para a minha pele... Pouco me importavam as explicações psico-sociais que pudessem eventualmente ser levantadas para justificar aquele estado de miséria e putrefação humanas! Definitivamente, tratara-se de pura e simples invasão, ato moralmente reprovável e repugnante e, mesmo que assim não pretendesse, inconscientemente premeditara o malfadado ataque, identificando em mim – de certo! – o arquétipo do oposto de tudo o que ela era... Se ao menos tivesse se desculpado, feito qualquer menção de arrependimento ou de pesar, ou ainda me implorado por algum trocado! Mas não, reorganizou aquela estrutura corporal, equilibrou-se sobre as pernas definhadas e simplesmente saiu, como se nada tivesse feito ou como se nada precisasse de ninguém! E como um animal egoísta e carniceiro ainda fez questão de demarcar seu território evolando aquele insuportável odor de urina.
Cheguei em casa e dirigi-me rapidamente para o banho, onde me demorei por mais de uma hora esfregando com violência o braço direito, até que não sobrasse resquício algum da sujeira transplantada. Ainda tomei a precaução de desinfetar o local com álcool, só para garantir. Por fim, pude ir dormir. Ainda intranqüilo, porém mais limpo.

03 Maio 2006

A MORTE DE DEUS

Dizem as beatas, filhas das beatas que à época supostamente teriam presenciado a cena: o cardeal saíra repentinamente da sacristia, invadindo a igreja esbaforido, completamente transtornado, e aninhara-se bem debaixo do púlpito, sob a parca e tenebrosa iluminação lunar que penetrava pelos vitrais da abóbada do templo. Relâmpagos rasgavam o céu sobre a praça da igreja matriz e os habitantes incautos não ousariam jamais sair ao relento naquela noite. Somente as beatas com suas túnicas pretas - que naquele cenário lúgubre mais pareciam almas caídas que renasciam de alguma profundeza – possuíam a autoridade moral para transitar pelos guetos adjacentes, e tão-somente para alcançar as enormes e faustosas portas da igreja. Dizem ainda que a entrada do cardeal deu-se concomitantemente com um estrondo aterrorizante provocado por um relâmpago que caíra nos arredores, iluminando momentaneamente o interior do templo, lançando sombras bestiais por todos os lados... Segundo elas, estaria ele completamente ensopado, a face lívida, os olhos arregalados e fixos em algum lugar que não pertencia a este mundo. Recolhido em posição fetal, trêmulo, repetia incessantemente uma frase em latim que nunca souberam reproduzir. Não podia ele enxergá-las, pois seus olhos já não mais pertenciam a esta dimensão: avistavam além algo de tal horror que fizeram calar a mente outrora tão lúcida daquele homem. Aflitas, teriam elas saído em busca de socorro e abandonado o santo homem ali onde estava. Ao retornarem um quarto de hora depois trazendo consigo o oficial de plantão, não mais o encontraram. O cardeal havia desaparecido.
As beatas – filhas das beatas que dizem terem estado lá – ainda garantem que no dia seguinte ao estranho episódio o sacristão da igreja e fiel assessor do cardeal fora encontrado a quilômetros dali, junto à margem de um lago, mirando a própria imagem que as águas bruxuleantes refletiam distorcida. Inquirido sobre o fato da noite anterior, contou que o cardeal havia algum tempo sofria de uma crise de fé por causa da repentina morte da mãe. Disse ainda que, naquela noite fatídica, após um acesso de neurastenia, absolutamente perturbado e desiludido, o cardeal adentrou a sacristia sem notar sua presença no recinto, e exigia de Deus Sua aparição como prova de Sua existência. Parou diante do espelho sobre a escrivaninha, mãos nervosamente apoiadas no móvel de madeira, e gritou para a própria imagem: mostra-Te, mostra-Te agora se existes! De repente, sua feição se transformou, seus olhos arregalaram e sua tez empalideceu... Foi então que o cardeal começou a balbuciar palavras em latim – aparentemente desconexas – e saiu em disparada.
As beatas dizem que, para suas mães beatas, o pobre homem vira o demônio estampado na própria face e enlouqueceu. Para o sacristão, contudo, a explicação era bem outra: teria o cardeal enxergado Deus em si mesmo, através da imagem refletida no espelho. Por que enlouquecera? Isso ele não sabia dizer. Talvez saber-se Deus e saber-se sozinho, e saber-se ainda onipotente e responsável pelas alegrias e misérias do mundo, e ainda responsável pela morte da própria mãe tenha sido demais para aquele coração resignado e fiel...
Nunca mais ouviram falar do cardeal ou de seu paradeiro.
Mas isso é besteira, dizem as beatas filhas das beatas que supostamente presenciaram o fato.

30 Setembro 2005

A DAMA DA TARDE

Adorava ficar olhando a chuva pela janela. Sabia que, de algum modo, a chuva também o olhava. Olhava meio de soslaio, como quem não olha, como se quisesse ter certeza de que era admirada. E então, quando o percebia na janela, cotovelos apoiados no batente interno por trás do vidro, caía mais dengosa ainda...
Às vezes, ele franzia o cenho desfocando a visão para enxergar a tempestade como uma massa de água disforme, viva e consciente. E então acompanhava encantando ao bailado daquele fenômeno, que trazia como coadjuvantes as lufadas de ar e as copas das árvores, que dançavam em sincronia com a música proporcionada pelos uivos lascivos do vento.
Admirava a enxurrada que descia as ruas, levando folhas de jornais que ora rodopiavam no ar, ora velejavam solenemente sobre as corredeiras que lavavam a cidade. E, enquanto a torrente lavava as ruas, imaginava-se lavando a alma, e via seus medos e suas culpas deslizarem juntos com a sujeira que era empurrada para os bueiros da cidade.
Não obstante o fascínio que a tempestade em dias frios e nublados exercia sobre seu ser, o que mais o extasiava era quando a chuva caía fininha num dia de sol. Nesses dias, permitia-se o regalo de abrir a janela para ver de perto a reverência que as margaridas da jardineira declinavam ao céu quase que sorridentes, as pétalas ouriçadas como que abraçando as gotículas que brilhavam com a incidência dos raios solares... E, num ato de extremo louvor e gratidão, inclinava então a cabeça para trás, olhos fechados, e deixava a face ser banhada por aquela benção úmida e divina.


Eis que naquele dia acordou com uma sensação estranha, um aperto no coração, um não sei quê de minimamente dolorido, porém sensível, real. Saiu de casa após cumprir formalmente o seu ritual matutino, torradas com geléia de morango, uma fatia de queijo fresco e efusão de camomila. Assistiu ao desenrolar do dia que, logo cedo, já prenunciara a chuva que estava por vir. E ele sempre se antecipava mesmo ao céu escuro e ao vento incisivo, haja vista a intimidade que desenvolvera com sua dama de janela; acordou sabendo que choveria. Por isso, estranhava mais ainda aquela sensação de angústia, tão rara no seu estático campo emocional. Passou o dia acompanhando as ameaças que sua amiga fazia, lançando de vez em quando pequenas gotas de encontro à janela do escritório, o céu se acinzentando e ganhando contornos de introspecção, denso, sufocante para quem tem olhos para ver. A tarde chegou e o aperto em seu peito se intensificava, constrangendo-o ainda mais. Deixou o escritório tenso – pois no âmbito de seu controle emocional odiava não saber o que sentia – e dirigiu-se para a garagem. Notou que suas mãos suavam, frias como a brisa que invadia o amplo estacionamento. Entrou no carro fazendo uma breve pausa, mordendo os lábios. Em seguida deu a partida e saiu.
Deparou-se com o trânsito intenso da avenida no momento em que ela se anunciou: o estrondo de um relâmpago fez tremer o veículo e, logo em seguida, ela despencou. Era uma tempestade magnífica, poderosa, daquelas que há muito tempo não via. Inexplicavelmente sua respiração acelerou, assim como sua freqüência cardíaca. Ficou mais irritado por não entender a razão de sua tensão, já que a chuva era sua mais fiel amiga. Rapidamente a torrente tomou as ruas, e uma enxurrada que mais parecia uma corredeira inundou a avenida. Em um instante já não era mais possível visualizar o veículo da frente. O som da tempestade era assustador e logo ouviu o primeiro sinal da fúria de sua amante – uma colisão a poucos metros de distância envolveu uma série de carros num engarrafamento interminável. Virou à direita buscando um caminho alternativo, enquanto o rádio anunciava a tormenta sem precedentes. Já não enxergava mais nada. Intimamente sentia-se traído; não entendia como as águas que despencavam furiosamente dos céus podiam fazer aquilo com ele. Definitivamente, tratava-se de pura e simples traição.
Já admitindo o próprio desespero, sem enxergar um palmo à sua frente, acelerou o automóvel naquele que imaginou ser o sentido que pretendia tomar. De repente, as rodas deixaram de tocar o chão e só então ele percebeu que era tarde demais. Havia conduzido o próprio carro em direção a uma ribanceira...
Despertou momentos depois, ouvindo o som dos limpadores de pára-brisa que insistiam em balançar de um lado ao outro inocuamente. Desligou o rádio que àquela altura transmitia um chiado qualquer, e só então se deu conta do acontecido. Saiu do veículo e lançou um olhar para cima, verificando a altura de onde havia se lançado, sentindo uma mescla de desespero e gratidão. Desespero por sentir-se traído. Gratidão por ainda estar vivo.
A chuva caía fininha acariciando o seu rosto, e o céu dava sinais de que a fúria tinha passado. Entendeu o recado. Juntou as mãos com as palmas viradas para cima, captando um pouco de água... Não, não bastava respeita-la. Acima de tudo, era preciso temê-la. Pois todo objeto de amor inspira medo. Sempre…

16 Setembro 2005

O IMPOSTOR

“Penso, logo existo”.
Sempre desconfiara daquela máxima cartesiana, mas nunca identificara o motivo. Sabia que o século XVI fora marcado por uma profunda reformulação do pensamento ocidental, um período conturbado de incertezas e confusões resultantes das grandes verdades acumuladas por mais de dois mil anos. Afinal, todas as grandes instituições foram abaladas por esse século crítico, aturdido por grandes descobertas, invenções e mutações filosóficas, que culminou num semi-caos que lançou o homem nas abstrações das dúvidas e perplexidades.
Sabia também que, da “destruição do Mundo e de Deus” sobrara o Eu – segundo Montaigne -, já que as certezas das garantias externas haviam sido absolutamente rechaçadas. A única convicção que sobrevivera ao dilúvio do pensamento ocidental era a de que existíamos.
“Existíamos?”
“Existiríamos de fato, apenas porque uma seqüência de fragmentos desordenados, mal e porcamente conectados, eram percebidos por aquilo que chamavam EU?”
Eram tantas as perguntas, e tão extenuante a busca por respostas, que um dia ele surtou.
Chegou em casa num estado sinérgico tão intenso decorrente do esforço intelectual levado a efeito que lançou-se sobre a prateleira e derrubou todos os seus livros no chão. Transtornado pelo fracasso na busca por respostas, rasgou violentamente as páginas de sua pequena biblioteca, até chegar à exaustão. Superado o surto, uma vez acometido por uma vergonha nunca antes experimentada, entregou-se ao choro, copioso, visceral. Deitou-se sobre a cama, ainda de sapatos, e deixou todo o desespero sair de si, lentamente... Foi sendo tomado por um relaxamento irresistível até que não pudesse sentir mais a densidade do próprio corpo. Aos poucos, paulatinamente, os pensamentos foram desaparecendo, surgindo espaços de puro nada entre um e outro... espaços vazios, sem cor, sem intenção, sem esforço. Uma paz inédita inundou-o de forma indelével quando os pensamentos se foram de vez. Estava dentro si, só e completo. Adormeceu.
Quando acordou repleto de felicidade, soube que, quando pensava, reproduzia um costurado de experiências que aprendera do mundo, dos pais, dos professores, dos livros e dos sentidos. Quando pensava, não era mais que um gravador a reproduzir elementos captados do exterior. Pensar era, em última análise, costurar um sem números de retalhos empíricos e tentar dar-lhes sentido lógico. Logo, não “existia” de fato quando pensava, apenas reconhecia-se por gente porque assistia ao filme mental confeccionado pelos “frames” capturados do mundo. E, quando o completo nada se apoderou dele, existiu de verdade, atemporal, intenso e eterno.
A partir daquele dia, nunca mais atendeu por seu nome. Quando lhe perguntavam o nome, simplesmente respondia: “Eu”. Assim assinava memorandos, cartas e e-mails. “Eu”...
“Ele surtou”, diziam todos.

02 Setembro 2005

A AZALÉIA E O MAR

Era apaixonado por duas coisas na vida: cheiro de mar e azaléias.
Como vivia na maior metrópole da América Latina, mantinha o odor áspero do mar guardado na memória, e desfrutava mais amiúde do perfume das azaléias.
Sabia tudo sobre elas: que eram originárias do oriente, principalmente do Japão e da China, que tinham sido trazidas para o Brasil por João Dierberger, fundador da frutifloricultura do mesmo nome em São Paulo, em meados do século passado e que contavam mais de oitocentas variedades catalogadas. Sabia que aquelas flores se adaptaram rapidamente ao clima brasileiro e que se proliferavam com a mesma velocidade invadindo casas, muros, grades e jardins...
Do mar, sabia pouco. Intuía mais que sabia. Intuía o significado inconsciente que a plenitude marinha exercia sobre ele, a fascinação do mistério que aquela profundeza encerrava e que, em última instância, era o “desconhecer a própria profundeza”.
Porque ele era tão profundo quanto o mar e tão ansioso quanto às azaléias. Sim, pois aquela florzinha - menos singela que bonita - escondia por trás das fascinantes pétalas a impaciência que não as permitia esperar pela primavera para desabrochar... Apareciam intensas e escandalosas no inverno mesmo, bem antes das outras flores que aguardavam preguiçosamente pela estação propícia. Assim como ele, que atropelava o presente tentando alcançar o futuro, quando este já era quase passado...
Também como as azaléias – que foram encontradas pela primeira vez em solo ressecado – ele padecia de uma sede, que não era bem de água. E talvez por isso fosse tão fascinado pelo mar... Não pela água, densa, salgada, sufocante. Pelo “cheiro” do mar. Aquele cheiro que ele podia pressentir ainda na serra, a quilômetros de distância do litoral. Um cheiro sem perfume, sem sutileza, mas que quando invadia seu pulmão lavava sua alma, remetendo-o para o quarto escuro e trancafiado das reminiscências de um momento que ele não podia identificar. Talvez lembranças do gosto do líquido amniótico, talvez fugaz recordação das profundezas do útero materno...
Mas em um dos muitos dias da sua solidão, e por circunstâncias que não vêm ao caso, praticou um crime. E, uma vez criminoso, fora indiciado, julgado e condenado. E, antes que pudesse rever o mar, viu-se trancafiado numa cela de oito metros quadrados, num destes presídios da Paulicéia Desvairada. Quinze anos. Quinze longos e sufocantes anos o separavam do reencontro com o mar e com os jardins da Liberdade, de onde trazia as melhores lembranças das azaléias, brancas, roxas, vermelhas ou salmão...
Certa manhã, quando não se permitia mais sequer desesperar-se, levantou-se lânguido em direção à grade quadriculada que dava acesso visual à prisão maior que eram os arranha-céus de concreto armado da cidade. Suspirando, baixou a cabeça batendo-a contra o aço das barras, braços estendidos para fora. Fitou o céu acinzentado, depois o que sobrava do horizonte e, por força do hábito, mirou o chão. Fora, talvez, o momento mais feliz da sua vida. Forçou o rosto contra a grade, contorcendo os olhos semicerrando-os, ainda não acreditando no que via: bem abaixo da janela, do lado de fora da parede da sua cela, por entre uma fenda muito pequena do concreto, uma linda azaléia perenifólia, roxa, desabrochara viçosa, vibrante, mágica! Deslizou o máximo que pode o braço por entre a grade, até entalar o ombro no pequeno vão quadrado, tentando alcançar a singela florzinha. No ápice do seu esforço, pouco antes de relaxar os músculos e desistir da empreitada, ainda resvalou, de leve, com a pontinha do dedo, a fina pétala da azaléia.
Extasiado, soltou um gemido visceral, depois chorou copiosamente, de prazer.
Ao se recompor, ainda de frente para a grade, fechou os olhos descansando a cabeça por entre duas das barras de aço que o separavam da flor. Respirou profundamente numa inspiração interminável. “Estranho” pensou. Podia jurar por Deus que sentia, bem leve, no vai e vem da brisa matutina, o inconfundível cheiro do mar...

26 Agosto 2005

NA RODOVIÁRIA

Certa noite abriu a lista telefônica e notou que, bem ao lado de alguns nomes, em páginas diversas, havia estampada uma pequena cruz gótica. Estranhara não ter percebido aqueles sinais antes, ficou intrigado.
Ao abandonar por um instante a lista ainda aberta sobre a escrivaninha, uma lufada de ar virou a página; voltou-se subitamente e lá estava a pequena cruz, bem ao lado de um nome de mulher. Um arrepio percorreu-lhe a coluna, instalando-se bem em sua nuca. Sem saber por que e sem vacilar apanhou o telefone, detendo-se por um momento. Em seguida, tomado por um impulso irreprimível, digitou os números correspondentes. “Pois não?”, respondeu a voz feminina. O fato que se sucedeu foi, no mínimo, impressionante. Dotado de uma inspiração inesperada, passou a narrar à sua interlocutora fatos da vida daquela, situações em que sentira o coração bater pungente, alegrias esquecidas, boas ações praticadas em tempos remotos e até aquele sentimento de plenitude experimentado no dia anterior, que fizera com que ela tivesse um lampejo de convicção da utilidade de sua existência, instante de paz.
Por cerca de dez minutos falou sem parar num tom agradável e acolhedor, fazendo com que aquela mulher resgatasse uma fé que submergira outrora no mar de angústias que as gotas do cotidiano formaram em seu peito. Ao se despedir, ouviu uma palavra de agradecimento que saiu embargada pela emoção que proporcionara àquela senhora.
Foi dormir transtornado, sem conseguir identificar a sensação que o acalentava.
Na noite seguinte, depois de passar todo o dia pensando no ocorrido e no quão surreal lhe parecera aquela história, resolveu ligar novamente para a mulher.
“Dona Cármen faleceu nesta manhã” informou a empregada, comovida.
Após o choque inicial promovido pela informação contundente, sobreveio uma sensação estranhamente boa. Sabia que havia despertado em Dona Cármen o sentimento de missão cumprida, exatamente na véspera de sua morte. E sabia também – sem saber como -, que cumprira a sua própria missão.
A partir de então, durante os dez anos seguintes, todas as noites abria a lista telefônica e procurava pela primeira cruz e o respectivo nome que a precedia. Fazia uma pequena prece invocando inspiração e digitava o número do telefone.
Foram mais de 3.650 pessoas que ele reconfortou, relembrando suas histórias, suas alegrias, o bem que fizeram a si mesmas e a outrem. Eram histórias de pequenos – mas não por isso menos notáveis – atos de bondade pura, de compaixão e de carinho incondicionais que, uma vez por ele recontados, traziam à tona os mais lídimos sentimentos de existência plena de seus interlocutores. 3.650 pessoas que partiram em paz, carregando consigo somente a certeza da própria bondade intrínseca.
Com o passar dos anos, contudo, chegou um momento em que sua certeza diluiu-se em meio às dúvidas angustiantes do intelecto. Já não trazia mais a convicção da utilidade e da realidade daquele dom e sua voz perdia paulatinamente a firmeza. Até que, numa noite, ao abrir a lista telefônica como religiosamente fazia todas as noites dos últimos dez anos, não avistou uma cruzinha sequer. Suspirou tristemente e ficou ali, ao lado do telefone, contemplativo, absorto. Estava doente do coração, estava cansado, infeliz. Levantou-se, acendeu um cigarro, preparou um café. Não tivera filhos, nem esposa, nem sequer um cachorro que lhe fizesse companhia. Sentiu, sem tentar resistir, uma lágrima escorrer de seu olho, e pensou que era a primeira vez que chorava depois de muitos anos.
Estava prestes a dormir quando foi repentinamente despertado pelo som alto do toque do telefone.
“Senhor Ismael?”
“Sim?”
“Não sei bem ao certo por que estou lhe ligando. Na verdade não o conheço, mas sinto que preciso dizer-lhe umas coisas...”.
Dez minutos.
Ao desligar o telefone, toda aquela angústia tinha se esvaído. Estava completo novamente, soube que por toda sua curta existência sempre fizera amor pela vida. Na verdade, fizera mesmo amor “com” a vida.
Preencheu a mala com boas lembranças, vestiu a mais bela alegria e sentou-se na cama, como se estivesse na rodoviária. Sorriu.
A viagem estava apenas começando.

15 Agosto 2005

“ACESSO À LIBERDADE →”

Gosto de infância.
Há tempos não sentia isso. E essas tardes frias de agosto remetem a lembranças de conforto... Gostos. Gosto de chocolate quente preparado pela mãe, de bolo de fubá saído do forno, de pipoca e televisão embaixo do cobertor. O vento frio que me faz mergulhar a cabeça entre os ombros com as mãos enfiadas dentro dos bolsos da jaqueta de couro enquanto caminho pela Avenida Paulista numa tarde de domingo traz cheiros, sensações, emoções e memórias de tempos idos. Tempos que não voltam. Tempos que, hoje, parecem sonhos que somente o inverno consegue puxar pela ponta de uma das linhas do imenso emaranhado do carretel da vida.
Caminho absorto, impassível pela calçada da avenida, exalando a quem lembra. Tempos de estudante, de engajamento ideológico, de descontrole alcoólico e emocional. Tempos outros, de fogueira à noite, de bicicleta, de jogo de botão, de apaixonar-se a cada novo dia e sentir frio na barriga, mãos geladas, tremedeira. Tempos de acordar no meio da noite com medo do escuro e correr para a cama dos pais, cheiro de cama dos pais. Cheiro que vem com o vento que aperta, e eu aperto o passo também. Andando pelo vão livre do MASP, lanço um olhar à esquerda sobre o vale da Nove de Julho... resquício de horizonte, coisa tão rara em São Paulo hoje em dia. Hoje e sempre, a não ser nas lembranças do subúrbio onde nasci, onde o que havia sobrado das várzeas da zona norte era invadido pela molecada nas manhãs de domingo, traves de madeira, areia, uniformes de futebol disputando com corpos seminus que conquistavam os céus e o nosso campo de pelada com suas pipas. Tardes de “três dentro, três fora”, paredão e rebatida. E quando éramos só dois, gol a gol mesmo.
Atravesso a Pamplona e caminho sentido ao Paraíso. Lembro e acho graça da música do Tom Zé em que ele diz que entre o Paraíso e a Angélica, encontrou a Consolação... E eu, particularmente, encontro um pouco de consolação naqueles lampejos de memórias do paraíso que fora minha infância, tão cheia de gostos, cheiros e impressões que de alguma forma permanecem em mim. Penso no quanto é tênue a linha que separa o fato do mito, do quanto são parecidas as lembranças do passado e do sonho de ontem à noite. São retalhos mal costurados de reminiscências que, à vezes, mais parecem saudades de quando se era algo que já não se é mais. E já não sei se algumas delas foram reais ou se eu as inventei no decorrer do percurso entre os dez e os trinta anos... Umas com certeza foram criadas aqui mesmo, entre as estações Trianon e Brigadeiro, nos últimos dez minutos.
De todas as saudades, a mais doída é a da liberdade intrínseca de criança. Liberdade de sonhar em crescer, de andar de metrô sozinho, de namorar. Liberdade de poder ficar acordado na rua até tarde da noite, de comer porcarias antes do jantar e de não tomar banho... Liberdade de querer ser qualquer coisa quando crescer, jogador de futebol, cantor, astronauta, bombeiro. Liberdade de poder ficar em casa no sábado à tarde, não precisar ir à casa da avó com os pais...
Em última instância era liberdade - pura mesmo - de sonhar. E hoje é tão difícil sonhar... Meu Deus!, por que a gente insiste em crescer?
Que saudade daquele tempo. E eis que, subitamente, quase perco o tempo. O do semáforo da Brigadeiro Luís Antônio; um 5126 da linha Aeroporto-Lgo. General Osório passa velozmente a dois palmos do meu nariz, uivando raivosamente sua buzina, rompendo o silêncio desta tarde de domingo. Saio do mundo das lembranças, refaço-me do susto e empertigo-me novamente, ofegante. Atravesso a avenida e acho graça da placa indicando o bairro em que moro: “Acesso à Liberdade”.
Freud explica. Sempre.

10 Agosto 2005

O JOGO

Vivia à procura de uma visão de mundo que justificasse sua existência.
Sabia intimamente que a solidão era a distância que mantinha de si próprio, mas de que valia aquela convicção concreta, estática, intelectual? Quantas vezes na vida se deparara com situações tão surreais, tão diametralmente opostas a tudo o que aprendera sobre como controlar o mundo, que não sabia o que fazer?
Não era louco. Sequer psicótico. Porém, trazia duas certezas consigo: não existia de fato; era um remendo irremediável de tudo o que aprendera na vida, desde que nascera. A outra – que o deixava mais apavorado -, era que havia um sentido implícito naquilo que convencionara chamar de “o jogo”. Mas, quem montara o tabuleiro? E o pior: era ele apenas um peão ou possuía autonomia para jogar os dados?
Tinha uma facilidade incrível para perceber a atmosfera das outras pessoas. Era só bater os olhos e pronto! Um conhecimento que não era traduzível o mantinha informado acerca do estado de espírito de qualquer um que lhe atravessasse o caminho. Obviamente tal qualidade lhe angariara muitos frutos no trato empírico da vida. Sabia exatamente o que dizer, como se portar, o que fingir. Contudo, não era o suficiente. Era necessário desvendar o mistério...
Arregimentou os elementos, afastou-se um pouco do tabuleiro e fechou os olhos. Sim! É isso! A vida era realmente um jogo!
Então, tudo estava claro.
Vejamos: a vida era composta por um tabuleiro, alguns peões e um dado. Havia um ponto de partida e outro de chegada. Para jogar o dado, bastava a intenção de realizar a ação. O que queria dizer que a “atitude” determinava o lançamento do cubo numerado. Assim, avançavam-se quantas casas o dado determinasse... Não, não. Muito simples. Simples demais!
De fato, havia ocasiões em que ele mesmo escolhia a distância do percurso. Como, então, classificar o elemento “sorte” naquele jogo?
Um dia, ao realizar a higiene pessoal no banheiro, abriu os olhos diante do espelho e teve um “insight”. Fora um momento de esclarecimento momentâneo, um espasmo de lucidez absolutamente involuntário. Aquele era o elemento que faltava. O espelho.
De fato, ao visualizar seu reflexo de forma tão nítida, tão diáfana, percebeu que recebia um sinal. Era a própria vida se fazendo entender, como um livro que se abre sem querer em nosso colo naquela página necessária para determinado momento.
Contorceu o rosto, franziu o cenho, levantou as sobrancelhas. Aproximou-se e recuou várias vezes do reflexo, passando as mãos no vácuo entre ele e o espelho. Desde os primórdios da civilização a vida tentava fazer-se entender e ninguém percebera e, justamente para ele, ali, naquele banheiro, o esclarecimento derramou-se de forma contundente e irreversível: ele simplesmente era. Não havia jogo, nem tabuleiro, muito menos dados. Só havia peões.
Sorriu maliciosamente para aquela imagem refletida, como uma criança que aprende a amarrar o sapato. Só por precaução, passou a carregar consigo um pequeno espelho de bolso. Nunca mais ficou só.
Conquistara, definitivamente, a habilitação permanente para pilotar aquela nave tresloucada que era a vida.

05 Agosto 2005

CADÊ CLARICE?


Ler, para ele, era uma fixação.
Desde pequeno, quando ainda não lia, entregava-se planctonicamente à sedução da magia das histórias lidas em voz alta pelo pai, às vezes tiradas de Monteiro Lobato, outras vezes de Malba Tahan e outras tantas ainda de Cecílias, Drummonds e afins...
Debruçava-se sobre as centenas de livrinhos ilustrados que amiúde ganhava de presente dos familiares, substituindo o texto original pelos próprios que as imagens lhe inspiravam. Em quantas oportunidades, mais tarde, admirou-se da própria criatividade infantil ao reler aqueles livros e dar-se conta de que não correspondiam às aventuras imaginárias que brotavam das figuras...
Uma vez leitor autônomo, submergiu nos mundos maravilhosos de Julio Verne; viajou com o Capitão Nemo a bordo do Náutilus, enfrentou os exércitos insurgentes junto de Miguel Strogoff para levar uma correspondência secreta ao Czar e conheceu os cinco continentes ao lado do aristocrata Phileas Fogg, em apenas oitenta dias! Dissecava livros e mais livros, dotado de uma ânsia devastadora por ler, ler, ler... Sua mãe, preocupada, advertia-o: “vai brincar, menino, larga esse livro!”
Os anos foram se passando e ele descobriu, um dia, que os livros podiam contar mais do que simples e belas histórias: podiam ajudá-lo a entender o mundo, as pessoas e – em última instância – a si próprio. Descobria, ainda em tenra idade, a filosofia. Algo que seu pai definia como sendo “uma coisa TAL, que sem a QUAL, o mundo continuaria TAL e QUAL”...
Eram Rosseaus, Sartres, Schoppenhauers, Nietzsches... Eram tantos e tantas teorias que aquela adolescência seria a primavera de sua vida. Constatou mais tarde, com relativo prazer, o quanto seu pai estava equivocado. E o quanto era fruto de tudo o que lera durante todos aqueles anos, e extasiava-se só de imaginar o que ainda havia por vir.
Claro que era uma pessoa normal.
Estudava, trabalhava, divertia-se. Bebia, fumava, namorava, fazia arte mesmo adulto. Mas tinha também plena convicção de que sua vida era um pouquinho mais rica – ou ao menos mais plena – do que a da média de seus contemporâneos.
Mas aconteceu que, de repente, ele começou a ausentar-se. Não fisicamente, mas é que sua cabeça passou a interpenetrar outras dimensões, mesmo durante o horário comercial. Viajava em sonhos e perdia o interesse pelo cotidiano.
Um dia, lendo Clarice Lispector, aconteceu o imponderável. Acompanhava com tanto interesse uma descrição da autora sobre um passeio ao Jardim Botânico carioca que, pouco a pouco, foi perdendo o sentido da realidade e passou a caminhar com ela pelas alamedas do parque. Viu cada folha levada ao chão por aquele tão vivamente descrito outono, pisou sobre as bolinhas de aroeira que cobriam o chão e sentiu – junto com a escritora – o intangível da seiva que oxigenava o tronco nodoso e escuro daquela árvore não identificada...
Interagiu de uma maneira tão intensa, tão nunca antes experimentada, que se perdeu por entre os arbustos que recobriam aquela pequena alameda do parque ecológico. Olhou ao seu redor e notou que estava fisicamente nas páginas daquele livro, havia penetrado o inefável reino do imaginário! Buscou desesperadamente encontrar Clarice, mas esta já se distanciava lá longe, caminhando lentamente, iniciando um novo conto... Ele permaneceu ali, boquiaberto, extasiado, fitando os poucos raios de sol que penetravam a densa escuridão da floresta. Ficou assim, estagnado e absorto, até que a página fosse virada.
Nunca mais ouviram falar dele.

01 Agosto 2005

EU SEI...

Eu vi seu sonho, menina. Eu estava lá.
Quando a bolsa rompeu e você despertou para a ilusão, eu estava junto.
Vi a luz com você, resisti ao seu lado. Desesperei-me também, quando o calor do líquido amniótico deu lugar ao frio daquela sala cinza. Morrer não é fácil... Ainda mais quando se fica de ponta cabeça, erguida pelos tornozelos. E quando cortaram o cordão umbilical? Meu Deus!, que desrespeito ao conforto alheio. E tem gente que reclama de barulho de vizinho em condomínio... Mas nada se compara ao “crescimento”. Os ossos se esticam – é assim que se chamam aquelas peças brancas que formam a estrutura do dito corpo? – a pele se torna áspera, secreções evadem seu ser... Coisas despencam daquela esfera assimétrica chamada cabeça e a elas dão o nome de “cabelos”. E aquilo que substituiu o sentir? Como é mesmo o nome? Ah!, visão! Uma percepção espacial limitada captada por dois orbes fixados na frente da tal cabeça... E não fosse o suficiente inibir-lhe o completo sentir, a tal visão ainda passa por uma série de burocracias até chegar ao cérebro que – como se não bastasse - a interpreta de forma tão deturpada. Aí, quando se pensa que toda dificuldade fora superada, colocam à sua frente outra coisa igual a você, porém com um membro fálico que despenca do púbis, e a mandam compreendê-lo. Como, se ainda sequer compreende a si mesma? Fora transformada numa coisa limitada no tempo e no espaço, que nasce, cresce, desenvolve-se, deteriora-se na decrepitude e morre. E ainda tem que entender as coisas alheias? Mas você se esforça, finge-se de entendida e acolhe o tal sexo oposto. Desenvolve por ele aquele sentimento que tem por si mesma. E leva o verbo “acolher” tão a sério, e mistura a isso o seu desespero por não saber mais nada, que coloca o membro fálico dentro de você. E sente uma dor que se confunde com prazer... E então, pronto! Lá está, você dentro de você mesma, de novo! Que êxtase voltar ao calor originário, não é? Aí, se torna duas: você e você criança. E tem a oportunidade de fazer-se entender explicando tudo o que viu àquela coisinha pequena e tenra que é o seu bebê. Que também explodiu junto com a bolsa e foi cuspido de dentro de você para dentro deste sonho maluco... Mas é uma esperança de vida, de sentido, e você o alimenta, ele a suga através do leite e a tal “vida” adquiriu sentido novamente. Até a “coisinha” crescer e ir embora. E agora você chegou ao ápice da degeneração, seu cérebro mal reconhece as imagens que capta pelos orbes e os ossos começam a definhar. Em um belo dia de Sol (como se acostumara a chamar aquele período de 24 horas em que não sente nenhum desconforto maior) seus olhos se fecham, uma pontada aguda e dolorida faz-se sentir em seu peito, o estertor da respiração cessa e o seu coração pára. E então você acorda lúcida, sentindo a brisa da verdadeira vida soprar em seu ser. E percebe a realidade de forma pungente, a luz muito mais radiante, e a certeza de que a serenidade não é um objetivo, mas um estado de espírito. E me vê ao seu lado, segurando a sua mão de forma terna e fraternal. “Foi só um sonho” eu lhe digo, e você responde: “Eu sei”.

27 Julho 2005

A VOLTA POR CIMA

Esterco úmido.
Todo vez tinha que ser ele: cinco cidadãos na turma e só um pisava na merda. Um pisava, quatro davam risada; e riam gostoso mesmo, por minutos a fio e, depois, quando passava a graça, alguém lembrava novamente o fato e todos desatavam a rir de novo.
Foram três anos morando na roça, caminhando três quilômetros para chegar à escola no centro da pequena cidade. Ia no caminho margeado pelos mourões e os milhares de metros de arame farpado que o separava dos ruminantes que sempre observavam-no, solenes. Estrada de terra, de pedregulho, e de lama quando chovia.
Mas, bom mesmo, era atravessar a ponte sobre o Rio Paraíba: vinte metros de altura, seguindo os trilhos da linha de trens da Fepasa, torcendo para não dar de cara com a máquina no meio do percurso. Quando isso acontecia – e não eram poucas as vezes – enfileiravam-se os cinco na margem da ponte ao lado da pequena mureta lateral de apenas trinta centímetros, apalermados pelo deslocamento de ar provocado pela passagem do comboio de vagões de carvão que os empurrava contra o vazio que era o depois da ponte, antes do rio. Uma eternidade aquele momento de impotência em que não se podia fazer nada a não ser esperar o trem passar sem derrubar o corpo no leito...
Logo após a ponte, do outro lado da margem do velho Paraíba, a zona urbana. Dali em diante, eram só mais oitocentos metros até o colégio salesiano. Passando pela praça da igreja matriz, na esquina da rua do mercado municipal, entravam na reta final – cento e vinte metros. Duzentos e quarenta passos que ele dava arrastando o sapato, na tentativa de limpá-los da bosta que, àquela altura, já era seca.
Não obstante tantas reiteradas pisadas em bostas – não só de boi, mas de porco, de cachorro, de mendigo... -, os vinte anos que hoje o separam daquele sítio e daquela ponte sequer lançam sombra sobre suas memórias. Não lembra das frustrações, das discórdias nem da relativa miséria. Nem mesmo daquela recuperação de final de ano que teve de cursar na oitava série, e que o impediu de conhecer mais cedo o Sul. Ficou, isso sim, a sensação inefável do deslocamento de ar e da vertigem que sentia quando o trem passava longo e lento, porém imponente, austero, respeitoso, e do equilíbrio que aprendera a desenvolver ao fechar os olhos. Numa dessas de fechar os olhos, ele cresceu, virou homem, ficou bem de vida. E de tudo isso o mais curioso é que, mesmo morando na Capital agora, continua a encontrar os mesmos quatro cidadãos dos tempos de juventude. Mas agora ele é patrão, e os quatro, subordinados. E estes vivem fazendo merda. Fazem-na e sentam em cima de vez em quando. Ele se finge de exasperado, neurastênico, ralha com os funcionários, sai soltando fogo pelas ventas. Mas no fundo ri. Ri por minutos a fio. E, mesmo depois que perde a graça, logo se lembra de novo do fato... e desata a rir por dentro mais uma vez, feliz. Afinal, fora uma criança saudável.

22 Julho 2005

EU EM DIAS DE SOL

Quando acordou, o mundo tinha acabado.
Esfregou os olhos, semicerrando-os para observar melhor sob a luz forte do sol que nascia ainda tímido. Não havia nada ao seu redor. Absolutamente nada. Demorou a dar-se conta de que algo estava errado: girou a cabeça para a esquerda, depois para a direita, buscando localizar algo com que se familiarizasse. Contudo, nada estava no lugar. Aliás, não estava em lugar nenhum. Sequer seu quarto, sua casa, seu bairro. Notou – com certo desconforto – que estava completamente nu, e sua primeira reação foi cobrir as partes íntimas. Porém, logo percebeu a desnecessidade do ato quase involuntário: não havia uma alma sequer a quilômetros de distância. Constrangido, soltou um longo suspiro, relaxando os ombros. Coçou a cabeça, franzindo o cenho. “É pegadinha” pensou, desconfiado. Arriscou alguns passos para frente, depois parou. Girou em torno de si mesmo mirando o horizonte, numa frágil tentativa de fazer um reconhecimento de campo. No entanto, para onde quer que olhasse era tudo igual. Um imenso descampado de uma massa uniforme, fria, clara. Nenhum relevinho, uma árvore, um acidente geográfico qualquer para servir de referência. Voltou alguns passos para trás – que bem poderiam ser para frente, já que não sabia onde estava – e sentou-se no chão frio. Daquela posição, fitando o horizonte, não pôde deixar de pensar no Pequeno Príncipe, solitário em seu minúsculo asteróide B 612. “Ao menos ele tinha três vulcõezinhos e uma flor para cuidar” constatou, desanimado. Permaneceu naquela posição por algumas horas, assombrado com o quão surreal era aquela situação. “Para onde teriam ido todas as outras pessoas?” indagava internamente. Num dado momento beliscou-se, desconfiado de que se tratava de apenas mais um sonho. Riu do próprio desespero velado, sabedor de que de nada adiantava desesperar-se: “o desespero é o pedido de socorro do orgulhoso”. Talvez estivesse morto, concluiu subitamente. Mas logo tal convicção o abandonou, diante da nítida sensação de concreção daquela realidade. No céu, só o sol, que já começava a dirigir-se para o poente. Cansado, com fome, confuso, desistiu de concluir e ficou admirando aquela enorme laranja, tal qual um vermezinho que sai da polpa e rompe a casca, colocando a cabecinha pra fora. “Puta laranjão!” pensou.

18 Julho 2005

BANZAI!!

1h39 da matina, 18 de julho de 2005.
Não pretendia escrever hoje, mas não pude me furtar...
Estou “zapeando” na TV a cabo, quando me deparo com um programa do Multishow (42) chamado “Banzai!”.
Uma mesa, uma loira estonteante, e cinqüenta notas de um dólar.
A brincadeira é a seguinte: a loira – estonteante! – leva pra casa quantas notas de um dólar ela conseguir enfiar na boca no prazo de 60 segundos.
Todos prontos, ela impassível, atrás da mesa, mãos sobre as coxas. Um gongo – não tenho palavras para descrever o quão bizarro me soou aquele gongo – é acionado eletronicamente e a loira surta, transformada (ou transtornada...), enfiando, uma a uma, as notas dentro da boca, verdinhas, parecendo couve.
O tempo passando, a boca ficando lotada, a moça passa a acondicionar melhor as notas ajeitando-as com o dedo indicador; algumas ela põe na lateral da mandíbula, ao lado da gengiva, como se fossem algodão de dentista... O narrador, num inglês que imita o sotaque histérico estereotipado do japonês, vai contando a quantidade de notas abocanhadas: 17, 18, 19... POOOWWMMMmmmm!! (aquele gongo bizarro encerra o cronômetro); ainda deu tempo para mais uma verdinha...
21 dólares. Foi a quantidade de notas que a senhorita conseguiu colocar na boca.
É quanto vale o show.
Eu, atônito, perplexo, permaneci olhando para a tela da TV. Sorte que, logo em seguida, começou o “Sexy Time”, onde as mulheres fazem coisas mais interessantes com a boca...

16 Julho 2005

SONHO BESTA...

Tudo fora muito rápido. O assédio, o aliciamento, o sono letárgico. Primeiro, o clarão. Um flash de uma intensidade inefável, acompanhado de um zunido sufocante. A isto se sucederam a arritmia e a sonolência, e depois a embriaguez do consciente... Um mundo de cores e sons rompeu o véu da realidade mórbida e uma verborragia mental, silenciosa, invadiu-lhe as entranhas. Ao menos lhe parecia interno. E parecia-lhe, também, que a existência se arrastava, pesada, espasmódica, absolutamente involuntária. A existência o precedia, incontrolável e inconstante, assim como sua freqüência cardíaca. Era agora um boneco de carne que se percebia como luz. Luz que pensava ser boneco... Luz que pensava que pensava... pensamento que se reconhecia por luz. De repente, simplesmente era, havia... estava. Já não pensava mais quando se tornou caleidoscópio. Pura existência irresponsável. Puro Ser. Num momento que já não cabia mais na sua antiga percepção temporal, sentiu-se consciência novamente. Na velocidade de um lapso temporal que não compreendera, a consciência pensou ser luz, e a luz entendeu-se pensamento. O pensamento, concreto, irrepreensível, pensou ser boneco...
Quando acordou, era simplesmente um boneco de carne, que pensava ter se tornado luz.
“Sonho besta, sô!”.
Desligou o despertador, aprumou-se, engoliu seu café e tomou o caminho da roça.
E os marcianos continuam pousando por aí.

12 Julho 2005

A PARTIDA DE SOPHIA

Quando o ônibus finalmente partiu levando sua amada, ele pôde, enfim, derramar a primeira lágrima. Fora uma lágrima tímida, pequena, quente e hesitante, que escorreu de seu olho esquerdo. O frio cortante estagnou aquela gota de líquido aquoso e incolor sobre sua pele, e ele sequer pode sentir o gosto salgado em seus lábios. Permaneceu ali, em pé, inerte, as mãos enfiadas nos bolsos pequenos do suéter buscando, em vão, uma sensação qualquer de calor. Quando o coração esfria, qualquer tentativa externa de obter afago padece.
Seus olhos fitavam persistentes a janela do veículo que levava Sophia, e que rapidamente desaparecia na estrada sob a forte serragem que impedia a visão. Por uma fração de segundo teve a nítida sensação de ver uma mão delicada e pálida, acenando por trás do vidro filmado. Tal sensação sucumbiu assim que a lembrança dos minutos anteriores reviveu em seus confusos pensamentos. “Você foi minha pior solidão...” – aquela frase reverberava em sua cabeça, como um estridente alarme de carro acionado em vão. Aliás, em vão fora sua tentativa de dissuadi-la da partida. Em vão porque seus argumentos retóricos foram desprovidos de qualquer convicção íntima, simples espasmos instintivos que sempre precedem a dor da perda.
Abdicara de tantos campos floridos, de tantas doses duplas de uísque e de tanto sexo sem, no entanto, abdicar do principal empecilho ao sucesso daquela relação que já nascera póstuma: seu medo. Sabia, intimamente, que sentia tanto medo de ser feliz quanto da morte; morte de tudo aquilo que lhe constituía o ser em si. Morte da mania de achar que o aprendizado do passado edificava aquilo que ele chamava de “eu”. Morte do preconceito das coisas que nunca entendera, dos vícios que jamais alimentara, dos sonhos que sequer plantou. Sabia que, a cada passo que dava de forma lânguida, trêmula, inconsistente, afastava-se cada vez mais de Sophia. Entendeu, num espasmo extremamente curto de percepção, que toda vez que voltava ao passado era aliciado descaradamente pela culpa, e com ela flertava libidinosamente. E que não podia deixar de abraçar o medo toda vez que antecipava o futuro.
Mas Sophia não gostava da culpa, e também não conhecia o medo. Sophia era independente, segura e solitária, e nunca se entregaria a alguém que carregasse consigo valores que nunca haviam sido vivenciados. “Para me conquistar você precisa abandonar tudo o que carrega do passado” repetia ela.
Até que um dia ela decidiu partir.
Ele mirou o chão, acompanhando com o olhar uma folha que o vento fazia dançar aos seus pés. Derramou mais uma única lágrima, a última dos próximos anos e depois sorriu. Soube que um dia teria Sophia. Porque assim estava escrito.
Foi embora cantarolando: “os olhos do jardineiro é que abrem o botão da flor”...

08 Julho 2005

RETALHOS

Um dia, construí uma jangada e lancei-me ao mar.
Poucas coisas levei comigo: um agasalho, um galão de água, uns poucos víveres e o meu inseparável “Cem Anos de Solidão”.
Um pouco antes de dar o último impulso com os pés e subir a bordo, fitei a costa; como já imaginara, nenhuma reminiscência – boa ou não – fazia despontar em mim o arrependimento. Levantei a pequena vela feita de retalhos da minha juventude, aprumei o leme e nunca mais olhei pra trás.
No princípio, acostumar-se a fitar o horizonte antes de dormir, à luz da lua, bem como ao acordar com a aurora que precede os primeiros raios do sol, era uma tarefa árdua. Não crescera habituado a olhar o mundo daquele ângulo. E, em alto mar, para onde quer que se olhe só se pode avistar aquela linha onde o céu beija o oceano... Mas, depois que se educa a visão, perscrutar com a imaginação aquela linha que de fato inexiste passa a constituir uma agradável terapia.
Para comer, pescava. Quando comia, pois fome mesmo não tinha.
Depois de esgotado o suprimento de água, aproveitava – com um funil – a água que dia sim dia não desabava do céu.
Alguns meses após ter deixado a terra firme, o tecido da vela se desgastou, e lá se foram os retalhos da minha juventude... Assim como, com o passar dos anos, a própria juventude.
Numa manhã qualquer das muitas que passaram a constituir uma única manhã, meu “Cem Anos de Solidão” caiu no mar. Sequer o primeiro impulso de lançar-me na água para resgatá-lo aconteceu. Observei, impassível, o livro distanciar-se da jangada, páginas abertas, feito o aptério que fora minha vida...
O silêncio, que sempre considerara sufocante, era agora música; e os pensamentos, raros. Quando não se tem aonde ir, não se pensa.
Anos se passaram, tempestades e dias amenos alternavam entre si nos vários atos do teatro da minha vida. Até que um dia, numa troca de cena, morri. Vi, dos olhos de uma andorinha, os músculos da minha face relaxarem, o estertor da respiração cessar mansamente e uma expressão de paz regozijar aquele rosto que já não era meu. Eu era, agora, a andorinha, o oceano e o céu. Vi a jangada ir diminuindo de tamanho lentamente, o mastro como epitáfio, até ser completamente engolida pelo horizonte.
Voei, pois precisava retornar a terra firme.



Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa:

"Aptério: Edifício grego desprovido de colunas."

07 Julho 2005

DESPAUTÉRIO!

Não pretendo vender meu celeiro... Não que não aprecie sua oferta, caro “amigo”, mas é que os tempos são de crise, você sabe... Forjei fianças, fraudei o fisco, assinei promissórias e o diabo a quatro, mas levantei meu capital. Quando todos estavam em êxtase com as “partículas de ouro” que disseram que sopravam pra cá, eu fiz minha parte... Não, não sou trouxa. Dormi ao relento, comi migalhas e senti o acero do aço pungindo minhas costas... Fiquei pneumônico, perdi cabelo e tudo... Mas meu celeiro está aí! Bonito, assentado, viçoso. Tem milho, soja, arroz e até ervilha... De certo que a praga dos ratos me deu algum trabalho, mas vai pra mais de mês que não vejo unzinho sequer por aqui. Agora, depois de tudo isso, me aparece você e simplesmente me propõe a compra!? Ah, mas não vendo. Não vendo mesmo! Isso é que não! E logo você, um homem letrado, quase erudito... Escreve no Diário da Província o quanto somos provincianos – e isto certamente que me ofende, já que moro no norte da ilha, não é? –, diz que temos medo do desenvolvimento, mas esquece de mencionar que o tal “desenvolvimento” vem no esteio do nosso trabalho... Nas costas do labor do provinciano aqui! Não quero ser deselegante, mas você bem sabe que também não posso deixar de ser sincero. E, na maioria das vezes, a verdade dói mais que mão queimada na fornalha... E olha que minhas mãos eu já queimei e não foi uma só vez não. Mas a língua, nunca. Nunquinha nessa minha vida inteira de cristão temente a Deus. Por isso, caro “amigo”, esqueça que eu existo e que um dia você passou por estas bandas e se interessou pelo meu celeiro. Porque eu vendi a minha juventude, vendi minhas oportunidades de sair desse fim de mundo, vendi – a preço módico – minha felicidade e quase vendi minha alma. Mas, meu celeiro, eu não vendo! Passar bem.